Destino ou acaso? a amizade sexagenária entre uma ex-andarilha e uma artesã


Por Vinícius Travassos / 10 de agosto de 2018

 

Em 1914, nascia na zona rural de Poções, sudoeste baiano, Virgilina Pombo, ela não tinha dimensão da importância daquele ano, mas o mundo tinha, pois foi o ano em que começou a Primeira Guerra Mundial. Mais adiante, em 1933, nascia em Jequié, que fica a 80 km de Poções, Carmelia Spinelli, curiosamente, esse foi o ano do acontecimento chave que, mais tarde, abriria caminhos para a Segunda Guerra Mundial: A nomeação de Hitler ao governo alemão. É inquestionável a importância desses anos, mas para Virgilina e Carmelia eles significam algo mais leve e subjetivo, o nascimento de duas mulheres, que em meio a tantos desencontros, se encontrariam e seriam protagonistas de uma longa e inesperada amizade.

Os caminhos percorridos por nossas duas personagens foram diferentes, mas igualmente conturbados. Virgilina, apelidada carinhosamente por Carmelia de “Juju”, perdeu a mãe quando ainda era criança, daí o pai a entregou para um padrinho a criar. Quando ela ficou grávida, o padrinho, seguidor dos rígidos costumes da época, a colocou para fora de casa. Sem o apoio da família, Juju virou andarilha, e foi nessas andanças que Juju chegou à casa da tia de Carmélia, em Jequié, pedindo um prato de comida, e assim foi ficando e ajudando nos afazeres domésticos.

A rejeição da família, a perda de dois bebês, e os inúmeros abusos sofridos nas ruas, fez com que Juju perdesse parte de sua sanidade mental, mas não a memória. Aos 104 anos, ela fala com lucidez os nomes dos pais e das irmãs: “Meu pai chamava Joaquim Pombo, minha mãe Cassiana Pombo, e eu tinha duas irmã (sic), Júlia e Diolina”, conta.

A agitação de Juju por conta de seus problemas mentais assustaram a tia de Carmelia, o que fez com que sua mãe, trouxesse Juju para Vitória da Conquista. No período, Carmelia estava em Goiânia com o marido, fazendo cursos técnicos de artes e jornalismo, não demorou muito e Carmelia foi para Brasilia, com o marido e os dois filhos, lá fundou o jornal Gazeta de Brasília, junto com outros amigos. Mas após 11 anos, decidiu se separar e se mudar com os filhos, por conta das constantes agressões do marido, “eu fugi com eles porque meu marido me maltratava demais. Eu sofri muito”, desabafa.

Carmelia fez das dificuldades motivação, e continuou a trabalhar, voltou para Jequié, onde finalmente conheceu a famosa andarilha que tinha chegado para ficar, mas o encontro das duas foi rápido. Além de jornalista, Carmelia era professora e artesã e fazia exposições de bolsas, espelho, consoles, estátuas de gesso, cerâmica, etc. Numa dessas exposições recebeu uma proposta, do então governador Lomanto Júnior, para dar aulas no Instituto de Artesanato Visconde de Mauá, em Salvador, e foi; mas conciliar a vida profissional à materna estava complicado, ainda mais estando sozinha. Voltou para a Bahia, e em 1975 passou uns tempos no Rio de Janeiro, de lá veio embora de vez para Vitória da Conquista.

Juntas há 64 anos

Em 1992, a mãe de Carmelia faleceu, aos 73 anos, ela sofria de arteriosclerose cerebral, “é uma doença que eu falava: ‘mãezinha, quem sou eu? ’ e ela respondia: ‘não sei…’, ela perdeu a memória por completo, e o médico disse que a doença só ia piorar”, conta Carmelia. Depois disso, Juju continuou morando com Carmelia, os filhos se casaram, a casa ficou grande para as duas, mas não para a quantidade de afeto e companheirismo que havia ali. Com um sorriso no rosto, Carmelia afirma: “tem 64 anos que Juju mora comigo”.

Colocar Juju num abrigo nunca foi opção, embora muitas pessoas tenham sugerido isso à família. Talvez, a frieza dos tempos atuais tenha banalizado essa ação, mas para Carmelia o trivial é o acolhimento, independentemente de laços sanguíneos Juju sempre foi da família, e todos a tratam como se fosse. A família de Juju nunca a procurou, e todas as tentativas de Carmelia de encontrar um familiar foram frustradas.

Bem humorada, a centenária brinca: “eles não veio porque eu não tinha o ‘barão’ (dinheiro), se eu tivesse eles tinha vindo (sic)”. Em meio as brincadeiras, Juju transparece gratidão, por ter encontrado em Carmelia e sua família algo que nunca tinha vivenciado, um lar de afeto. “Ela sempre diz que se não fosse por mim ela nem estaria viva”, diz Carmelia.

Inimigo inesperado

Com tantas histórias na bagagem, elas não imaginavam que ainda iam passar por maus bocados juntas, depois de a melhor idade já ter batido à porta. Há seis anos, Carmelia descobriu um câncer no intestino, operou às pressas e logo depois começou o doloroso processo de quimioterapia. Aos 98 anos, Juju teve que segurar as pontas em casa, sozinha, além de estar sempre ao lado da amiga, cuidando e apoiando.

Após 16 sessões, a quimioterapia foi suspendida, e o tratamento continuou em casa, à base de amor e remédios, e deu certo! A batalha contra o câncer encheu Carmelia de vigor, “tô firme e forte, só tenho problemas de artrose e osteoporose, por causa da idade, mas tô viva e sã depois de ter brigado com o maior inimigo do mundo, que foi o câncer, e venci”, comemora, emocionada.

Ao redor de Juju e Carmelia tem dois filhos, cinco netos e cinco bisnetos. Carmelia conta orgulhosa, que mesmo com as dificuldades colocou os filhos para estudar, um deles tem duas graduações e fala quatro idiomas. “É por todas essas coisas que me orgulho, do que eu sou e do que vivi, não me importo em ser pobre, me importo em ser amada, como sei que sou”.

Vitalidade, cuidado e afeto

Desde que chegou à casa da família Spinelli, Juju foi diagnosticada com prolapso uterino (condição em que o útero, devido ao enfraquecimento dos músculos, ligamentos e membranas que o sustentam, desce da cavidade pélvica para o canal vaginal), problema ocasionado por conta da violência sofrida, por ela, nas ruas. Mas isso nunca a impediu de trabalhar, ela fazia de tudo um pouco, enquanto Carmelia dava aulas e fazia exposições, Juju era a dona da casa, lavava, cozinhava, cuidava dos filhos e netos de Carmelia, e assim foi durante muito tempo. Segundo Carmelia, Juju não tem nenhum problema de saúde, a não ser o prolapso e a memória falha, mas embora a idade já tenha chegado para as duas, a vitalidade de ambas continua visível.

Carmelia é extremamente cuidadosa com a amiga, todas as tarefas são cronometradas, nem o café e nem os remédios podem passar um minuto do horário marcado, senão acaba atrasando a confecção de bonecas de pano de Carmelia. Ela continua costurando, sob encomendas e para passar o tempo, mas já não faz as mesmas exposições de antes. Juju, sempre cautelosa nos cuidados com a casa, faz questão de tirar o pó dos móveis várias vezes ao dia, mesmo não enxergando muita coisa.

Vez ou outra, Carmelia leva a amiga para passear no centro da cidade, comer churros, e acompanhar nas rotinas de banco e marcações de exames, assim elas seguem juntas, materializando o significado de amizade que está no dicionário: “dedicação recíproca entre duas pessoas”. E talvez, as vidas dessas duas mulheres tenham se cruzado por algo mais forte que o acaso.